Ano passado eu morri

Esse é o último texto do ano, e eu tinha a ideia de escrever sobre a vida em casal. Percebi que pouco sei sobre o assunto. Antônio Carlos Jobim dizia e cantava que o amor era fundamental, será mesmo impossível ser feliz sozinho? Não sei responder. Aliás, quando se trata de amor a resposta mais sincera que podemos dar é reconhecer nossa completa ignorância.

Por isso decidi mudar a pauta fazer uma pequena síntese do que esse ano significou para mim.

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário (…)

O início do livro Um conto de duas cidades”, lançado em 1859 por Charles Dickens sempre foi uma das minhas passagens prediletas.


Mas foi só nesse ano que pude compreendê-la em toda sua grandeza. O melhor ano da minha vida, o ano em que meu filho nasceu foi também o pior ano de todos, o mais duro. Não falo apenas sobre a experiência de passar por um puerpério, aprendizado esse que me transformou completamente. (Sobre) viver esse ano não foi tarefa simples.


Pessoas amadas me decepcionaram e pude finalmente percebê-las em sua verdade, despir nossos olhares do véu da idealização pode ser muito doloroso, mas, enxergar as pessoas pelo que elas são, no final, apenas pessoas com suas dualidades, qualidades e defeitos é também de uma beleza extrema.


Aliás, a dualidade essa coisa louca que mora dentro de nós. O ano que mais amei foi o ano que mais alimentei o rancor, como pode? Há espaço para tudo? Para essa questão, recorro ao pensamento de Hegel, filósofo alemão, que nos apresenta o reconhecimento de tudo, a aceitação de tudo; isto está certo, aquilo está certo, aceite isso, aceite aquilo.


As componentes da dialética apresentadas pelo filósofo são: a tese, a antítese e a síntese. A tese é a realidade da situação presente. O elemento novo, que vem se opor à tese é a antítese. Unidas, a tese e a antítese formam a síntese. Este seria o processo da vida. Este seria o processo do estado da sociedade. Este seria o processo do progresso. O pensamento de Hegel não nega coisa alguma. Tudo é aceito e tudo se desenvolve por si mesmo no processo dialético de tese, antítese e síntese.


Um grande alívio compreender que sempre haverá o bom e o mau, o certo e o errado, o feliz e o triste. Em tempos pautados pela polarização perceber que no diferente ou no que não gostamos há muito mais de nós do que nós gostaríamos, talvez nos torne um pouco mais próximos.


Dessa maneira, finalizo meu ano Hegeniano de forma mais tranquila e sutil. Esperando o dia 1° de janeiro chegar para poder dizer que ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

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